por @marco_sa

Não só de trios elétricos vive Salvador. De Raul Seixas e Marcelo Nova a Pitty e Maglore, a cidade também produz rock dos bons. E a já experiente Cascadura é uma banda formada por lá. Neste que é seu quinto álbum, talvez seja esse o mais claro diálogo entre banda e cidade: História (com H maiúsculo mesmo) do descobrimento à escravidão, cultura, do candomblé à monarquia. E solos de guitarra, blues e soul, baladas de amor e participações especiais. Fábio Cascadura, andré t, Thiago Trad e Jô Estrada e, durante o processo, uma guitarra a mais por conta de Du Txai, apresentam “Aleluia“.
Em “Colombo”, primeira canção a ser divulgada, em julho do ano passado, um interessante arranjo de percussão, com peças em barro, madeira e couro, proporcionando um clima “marcial rústico”. Como se não fosse o suficiente, temos a intvenção pra lá de especial de Siba e sua histórica rabeca. E a letra já entregava a intenção conceitual:
Loucos para cá virão
Aventureiro ladrão
Sermões e servos, escravidão
Os daqui saberão o que é ser triste.
“Sonho de Garoto” conta com os gaúchos da Cachorro Grande e um envolvente solo de guitarra 12 cordas de Jô. Citando versos de “Chorando no campo”, a homenagem a Lobão parece estar bem além da letra, quase uma versão (especifcamente aquela do Ira! em “Isso é amor”, de 1999). O próprio Lobão, que vez ou outra elogia publicamente a banda, qual não vai ser a alegria quando ouvi-la (se já não tiver ouvido)?
Em “Soteropolitana”, grata influência dos Rolling Stones, ainda que com frescor. Talvez seja a faixa que mais converse com e sobre Salvador. Vocacionada a um hino, tal como “Sympathy for the Devil”, Fábio explica a intenção da faixa e do trabalho como um todo:
…estabelecer algumas ligações, através da nossa abordagem, entre os muitos desdobramentos da influência da Diáspora Africana constituída a partir do tráfico transatlântico de escravos na música. Por isso, encontramos rock, blues, rhythm’n blues, bolero, samba, samba-reggae, toques de candomblé, nessa obra. Mas ainda há espaço e tempo para dizer que ela também é galega… Ibero-africana.
Já “Os reis católicos” volta ao clima marcial, monárquico, como em “Colombo”. Narrando a chegada dos europeus à Bahia (“O genovês ruivo, vindo de outra fé“) e a relação entre Ferdinando de Aragão e Isabel de Castela, uma balada romântica, apesar da ironia na letra. Mesclando português e espanhol, é uma declaração de amor de Aragão a Castela que se entreva e se enche de esperança na mesma letra.
Muitas chagas hão de rebentar
Não haverá como pagar
Ponhamos tudo na conta de Deus
Que dEle somos servos e Ele apenas é…
“Um engolindo o outro” tem letra é lamentavelmente atual: trata da cobertura midiática aos absurdos cotidianos, a chamada “banalização da violência”. Um blues, de cordas frouxas, como deveria ser… mas com uma intervenção pra lá de inusitada (não estivéssemos falando de uma das bandas mais inventivas do cenário nacional): um berimbau, tocado pelo guitarrista Du Txai. Em alguns momentos, parece que Fábio ou vai chorar, ou vai explodir. Ou os dois.
Uma das mais bonitas do disco, “Nunca imaginei” é carinhosa e até narcisista, de um jeito que não soe pejorativo nessa letra, com a cidade natal. Além da participação de Nando Reis (um paulista reverenciando lindamente a primeira capital), há uma referência clara aos Beach Boys na melodia. O jogo de sons com as rimas “mar/altar” e os versos “Mescla fundamental / Água doce e de sal / Céu descendo, azul, no chão do seu vitral” dão a impressão que a música tira seu chão por alguns minutos, não existe mais gravidade, somente ternura.
Quando estive em Salvador, em julho de 2010, ouvi essa expressão algumas vezes, sempre que algo de esquisito estava para acontecer, como um elemento suspeito me abordando às beiras do Elevador Lacerda. “Lá ele!” é a terceira e Fábio conta:
“O título dessa canção foi tirado de uma expressão corrente entre os que moram na Bahia: quando querem expressar a rejeição a algo de ruim que pode vir a lhe acontecer, a gente diz “Lá ele!”. O tema abordado aqui é o crack, que, como em outros centros urbanos, se tornou flagelo social na Cidade da Bahia”.
Para completar, há uma sutil referência ao candomblé, através dos elementos “terra” (Omolu) e “vento” (Iansã), numa súplica para que cuidem “dele”, o “Lá ele” da faixa, que poderia ser o elemento do Elevador Lacerda naquele dia…
Eu poderia comentar faixa a faixa, porque é um disco que, como ouvinte, empolgou-me. Quando dizem que não se faz mais música como antigamente, eu agradeço. Agora direi “Aleluia”. Cascadura reverencia o passado e sua cidade, com os pés no presente e olho no futuro. Salvador merece e o Brasil agradece.
Ouve aí algumas faixas. Logo abaixo tem o link para download:
Baixe o disco aqui.